sexta-feira, 5 de março de 2021

Adeus

Já gastamos as palavras pela rua

meu amor

e o que nos restou não chega

para afastar o frio de quatro

paredes 

gastamos  tudo menos o silêncio


Gastamos os olhos com o sal

das lágrimas

Gastamos as mãos à força

de as apertarmos


Gastamos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis


meto as mãos  nas algibeiras e não encontro

nada antigamente tínhamos tanto  para dar

um ao outro era como se todas as coisas fossem

minhas quanto mais te dava mais tinha para te dar


as vezes tu dizias os teus olhos são verdes e eu acreditava

acreditava porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis

mas isso era no tempo dos segredos no tempo em que  os meus

olhos eram realmente peixes verdes


hoje são apenas os meus olhos è pouco mas è verdade uns olhos

como todos os outros


já gastamos as palavras  agora quando digo meu amor já não  se não

passa absolutamente nada e no entanto antes  das palavras  gastas

tenho a certeza que todas as coisas estremeciam sò de murmurar 

o teu nome no silêncio do meu coração


não temos já nada  par dar dentro de ti não há nada que me peça

água o passado è inútil como um trapo velho e já disse  as palavras

estão gastas  Adeus


dedicado a Ana  Pereira por fausto  fonseca

poema  de Eugénio de Andrade in  Poesia e Prosa

por te amar deste jeito sem jeito para te amar

Adeus !
 

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